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13/4/2026

O problema não é a inteligência artificial, é a falta de maturidade para usá-la

Por Larissa Mota, CEO do Grupo Exímia e especialista em folha de pagamento*

A inteligência artificial se tornou um dos temas mais repetidos no ambiente corporativo. Ela aparece em reuniões de planejamento, em discursos de inovação e em praticamente qualquer conversa estratégica. Isso não aconteceu por acaso. Ferramentas generativas acessíveis, como o ChatGPT, e soluções corporativas de automação transformaram a IA em um recurso capaz de alterar produtividade, reduzir custos e influenciar decisões com velocidade inédita. Relatórios como o State of AI in the Enterprise, da Deloitte, mostram que a adoção deixou de ser experimental e passou a fazer parte do negócio, o que explica sua presença constante nas conversas de executivos de todas as áreas, e não mais apenas de TI.

Mas o entusiasmo não diminui a contradição central: as empresas falam sobre IA muito mais do que de fato a utilizam. Um dado recente escancara isso. Embora muitas organizações afirmem ter adotado inteligência artificial em alguma frente, apenas 46,2% dos profissionais realmente utilizam essas ferramentas com frequência no trabalho. O número revela uma realidade desconfortável. A maior parte das empresas ainda não tem maturidade digital suficiente para transformar a tecnologia em rotina. Um estudo global da McKinsey reforça essa desigualdade: apenas cerca de 1% das companhias se considera madura em inteligência artificial. Ou seja, apesar do discurso, quase ninguém está, de fato, preparado.

No Brasil, o cenário é ainda mais evidente. A maioria das organizações testou algum chatbot ou solução pontual, mas esse uso é raso, fragmentado e pouco estratégico. Na prática, virou um verniz de modernização, como se experimentar uma ferramenta fosse suficiente para declarar que a empresa entrou na era da automação inteligente. É um movimento que mais serve para alimentar a narrativa corporativa do que para gerar impacto real. A distância entre disponibilidade e uso efetivo continua enorme, e boa parte das empresas nem percebe o tamanho dessa lacuna.

As causas dessa desconexão são conhecidas, mas frequentemente ignoradas. A primeira é a baixa maturidade digital. Sem processos mapeados, sem dados organizados e sem integrações mínimas entre sistemas, qualquer iniciativa de IA nasce condenada a ser superficial. A segunda é a falta de capacitação. Funcionários recebem acesso à tecnologia, mas não formação adequada para usá-la com profundidade. Pesquisas internacionais, como as da Lifewire, mostram que o acesso cresceu muito mais rápido do que o entendimento técnico. A terceira barreira é estrutural e envolve a ausência de integração com sistemas críticos. Iniciativas de IA seguem isoladas, desconectadas de ERP, CRM, folha ou outras plataformas essenciais, o que impede que a tecnologia deixe de ser acessório e se torne parte do coração operacional.

Mesmo assim, a presença da inteligência artificial no discurso corporativo só aumenta. Isso ocorre porque testar a tecnologia nunca foi tão fácil. Qualquer profissional consegue usar IA em poucos minutos, sem depender de equipes técnicas. Essa acessibilidade cria uma ilusão de avanço, como se experimentar uma ferramenta significasse incorporá-la de fato. Além disso, a pressão de mercado é constante. Big techs, investidores e a própria mídia tratam a IA como inevitável, quase como uma credencial obrigatória para o futuro do trabalho. Diante desse ambiente, muitas empresas preferem parecer preparadas a investir no preparo real.

O problema, portanto, não está na IA. Está na capacidade das organizações de absorvê-la com método, responsabilidade e clareza estratégica. Enquanto continuarem priorizando anúncios, campanhas de inovação e declarações otimistas em vez de implementação estruturada, governança e integração profunda, a inteligência artificial continuará restrita ao discurso. A transformação prometida seguirá sendo adiada por falta de maturidade e coragem organizacional para enfrentar seus próprios gargalos.

A discussão precisa mudar de perspectiva. A pergunta central não é mais o que a IA pode fazer, e sim o que as empresas são realmente capazes de fazer com ela. Só organizações que investirem em maturidade digital concreta, e não apenas em experimentação superficial, colherão resultados reais. O restante seguirá repetindo o discurso de inovação enquanto, na prática, continua parado no mesmo lugar.

*Larissa Mota é advogada, especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais pelo Centro Universitário Braz Cubas. Em 2005, fundou a Exímia, BPO especializada em terceirização de folha de pagamento e gestão de benefícios.