Por Larissa Mota é advogada, especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais e CEO do Grupo Exímia*
Durante décadas, o modelo de carreira linear, baseado em progressão constante e previsível dentro de uma mesma área ou empresa, foi considerado o ideal. Em 2025, esse modelo começa a perder espaço para trajetórias não lineares, caracterizadas pela transição entre diferentes setores, empresas e até profissões. Essa mudança estrutural no mercado de trabalho está diretamente ligada à busca por inovação e disrupção, que encontram na diversidade de experiências um terreno fértil para novas soluções.
Profissionais que trilham carreiras não lineares carregam repertórios variados, visão multifacetada e maior capacidade de adaptação em cenários incertos. Se antes eram rotulados como “inconstantes” ou “indecisos”, hoje são vistos como generalistas criativos e estrategistas ágeis. Esse perfil se torna ainda mais relevante diante da velocidade das transformações tecnológicas. Segundo o LinkedIn, 75% dos profissionais brasileiros consideraram mudar de emprego em 2024, um aumento em relação aos 60% do ano anterior, o que mostra que a mobilidade e a reinvenção já fazem parte da dinâmica profissional.
Apesar dessa mudança de percepção, muitas empresas ainda mantêm processos seletivos rígidos que desvalorizam trajetórias fora do padrão. O recrutamento tradicional tende a priorizar linearidade e permanência, ignorando que experiências diversificadas podem ampliar a capacidade de resolução de problemas e gerar perspectivas inovadoras. Segundo a Harvard Business Review, cerca de 70% dos profissionais mudaram de carreira ao menos uma vez em suas vidas, evidenciando que a não linearidade já é uma realidade consolidada. O problema, portanto, não é a falta de profissionais com essas trajetórias, mas a falta de preparo das empresas para reconhecê-los.
Essa contradição gera um desafio estratégico para o RH, que precisa equilibrar critérios objetivos com abertura à pluralidade de experiências. A questão não é apenas cultural, mas também competitiva. Em um mercado cada vez mais dinâmico, privilegiar apenas o modelo tradicional significa perder acesso a talentos que poderiam acelerar a inovação e fortalecer a resiliência organizacional. Para transformar esse cenário, é preciso rever práticas de recrutamento, adotar métricas mais alinhadas às habilidades transferíveis e construir políticas que valorizem diversidade profissional como ativo estratégico.
Um caminho para superar o viés contra carreiras não lineares é investir em processos seletivos baseados em competências e potencial de desenvolvimento, em vez de apenas no histórico de cargos ocupados. De acordo com a Gallup, 67% dos colaboradores que enxergam oportunidades claras decrescimento profissional relatam níveis mais altos de engajamento em suas funções. Ou seja, valorizar a multiplicidade de trajetórias pode aumentar o comprometimento e a produtividade da força de trabalho.
Em um mercado de constante evolução, profissionais com carreiras não lineares se destacam por sua flexibilidade, aprendizado contínuo e visão estratégica ampliada. Reconhecer esse perfil como essencial para organizações inovadoras não é apenas uma questão de justiça e inclusão, mas também de competitividade e sobrevivência no longo prazo. O desafio agora está nas empresas, que precisam abandonar velhos filtros de seleção e abrir espaço para profissionais capazes de entregar soluções criativas em um mundo em transformação.
*Larissa Mota é advogada, especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais pelo Centro Universitário Braz Cubas. Em2005, fundou a Exímia, BPO especializada em terceirização de folha de pagamento e gestão de benefícios