
Por Larissa Mota, advogada especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais e fundadora da Exímia
Pela primeira vez na história do mercado de trabalho, uma mesma organização pode reunir Baby Boomers, Geração X, Millennials, Geração Z e, em alguns casos, até profissionais da Geração Alpha iniciando estágios. Ao mesmo tempo, a inteligência artificial redefine a forma como tarefas são executadas e decisões são tomadas. Apesar de acontecerem simultaneamente, esses movimentos costumam ser tratados em frentes distintas: um fica sobre responsabilidade do RH, enquanto o outro é conduzido pela área de tecnologia. Essa separação impede que muitas empresas percebam o potencial existente na combinação entre pessoas de diferentes gerações e novas tecnologias. Mais doque administrar mudanças, o desafio das lideranças passou a ser integrar esses dois elementos em uma mesma estratégia de transformação.
Os números mostram que a diversidade geracional já faz parte da realidade corporativa, ainda que muitas empresas não saibam aproveitá-la. Uma pesquisa da PwC Brasil revela que 95% das pessoas reconhecem benefícios em conviver com diferentes gerações no ambiente de trabalho. Mesmo assim, 65% das organizações brasileiras ainda não possuem programas estruturados voltados para essa diversidade. A distância entre reconhecer o valor e transformá-lo em resultado evidencia uma oportunidade pouco explorada. Diversidade geracional deixou de ser um discurso institucional para se tornar um ativo que precisa ser gerido com o mesmo rigor dedicado aos indicadores financeiros e às metas de negócio.
Situação semelhante acontece com a inteligência artificial. Enquanto muitas organizações ainda discutem políticas formais de uso da tecnologia, os colaboradores já a incorporaram à rotina por iniciativa própria. Segundo o Microsoft Work Trend Index, 75% dos trabalhadores utilizam ferramentas de IA no trabalho. O desafio, portanto, deixou de ser estimular a adoção e passou a ser direcioná-la para gerar ganhos consistentes de produtividade e inovação. Porém, outro levantamento da Microsoft mostrou que apenas 19% das organizações conseguiram alinhar a maturidade em IA das equipes à preparação da empresa para absorver essa transformação. Isso reforça que o principal obstáculo não está na tecnologia, mas na capacidade da gestão de conduzir essa mudança.
É nesse cenário que o papel da liderança se torna decisivo. Cada geração reúne competências que se complementam e que podem ampliar os resultados da inteligência artificial quando trabalham de forma integrada. Profissionais mais experientes costumam contribuir com visão sistêmica, capacidade de julgamento e leitura apurada de riscos, construídas ao longo da trajetória profissional. Os mais jovens, por sua vez, tendem a demonstrar maior familiaridade com novas tecnologias, rapidez na adoção da IA e facilidade para colaborar em ambientes digitais. Quando esses grupos são colocados em competição, a organização desperdiça conhecimento dos dois lados. Já quando há estímulo à troca de experiências, a tecnologia deixa de ser apenas um acelerador de tarefas e passa a ampliar a qualidade das decisões.
Se antes liderar significava distribuir atividades e acompanhar entregas, hoje liderar passa, cada vez mais, por conectar pessoas, conhecimento e tecnologia. As organizações que conseguirão extrair mais valor da inteligência artificial serão aquelas cujas lideranças estimularem a troca entre diferentes gerações, criarem ambientes de aprendizagem contínua e derem clareza sobre como a tecnologia deve apoiar o trabalho, e não apenas automatizá-lo. Quando profissionais experientes compartilham visão estratégica e capacidade de julgamento, enquanto os mais jovens aceleram a adoção de novas ferramentas e formas de trabalhar, a IA deixa de ser apenas um recurso de eficiência e passa a ampliar a qualidade das decisões e a inovação.
Nos próximos anos, a tecnologia estará cada vez mais acessível e, por isso, perderá força como diferencial competitivo isolado. A vantagem estará menos na ferramenta escolhida e mais na capacidade das lideranças de integrar competências, aproximar pessoas com repertórios distintos e transformar essa diversidade em resultados para o negócio.
Larissa Mota é advogada, especializada em Relações Trabalhistas e Sindicais pelo Centro Universitário Braz Cubas. Em 2005, fundou a Exímia, BPO especializada em terceirização de folha de pagamento e gestão de benefícios.